quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Uma história sobre Patos e Marrecas.






Há dias nos quais não se sabe ao certo o porquê, mas trazido nas asas de algum momento revisitado, damos de ficar sentado nesse balanço de outros tempos.
Nesta manhã, visitam-me patos e marrecas.
Havia um tempo em que os patos e as marrecas eram meus companheiros. Quando tudo se transformava naquele espaço hostil, típico de um casamento falido, era o grasnar desses bichinhos que me acudiam.
Às vezes, eu imaginava que, lá do quintal, eles também percebiam a agonia interna da casa, pois era em momentos assim que suas sinfonias se tornavam intensas.
Quem já ouviu grasnar, sabe que não é dos cantos o mais belo. Mais eram meus os seus cantos, seus “prantos”, suas fomes, e nossas agonias.
Eles me davam canto rouco que me acudiam do choro infantil e eu os protegia da mão carrasca daqueles que os desejavam como prato principal de um dia qualquer. Mas, dentre todos, havia uma que para mim era especial, uma marrequinha de pelo lustroso e negro que eu carinhosamente chamava de Patolinha. Entre nós havia muita sintonia. Eu a amava com especial atenção, pois de todos, ela parecia ser a mais frágil e era também a mais carinhosa comigo. Inocente que eu era naquele tempo, não sabia que por vezes as relações de quintais também têm lá suas violências. E foi em um dia que trouxeram ao quintal um pato grande, forte, que descobri que patolinha e eu éramos tão indefesas as nossas sinas. As dores daquela manhã talhariam minha alma de uma verdade ímpar, que me parecem ter vestido os anos seguintes da minha vida.  Ainda hoje não sei por que razão ele bruscamente matou minha companheira de penas lindas. Patolinha foi talvez, para o além, onde descansam as almas dos patos bons. Aquele que a matou e também morreu sob a mira de minha fúria há de ter carpido mais que aquela água quente que lhe arrancaram as penas.
Dessa tristeza primeira, ficou a lembrança revisitada nessa manhã nem sei por que. Das tantas outras perdas que assolam minha vida, ficam em dias assim um vazio, uma busca e uma saudade, não apenas da Patolinha, minha amada marreca de penas lindas, mas de um tempo em que o quintal e eu éramos plenos, completos, ainda que vez ou outra o grasnar fosse o apelo de fuga a realidade do meu lar. Nessa manhã cinza de sol nublado, queria ser criança assustada para ter de volta a fantasia do que já não há.

Dona Ulina
17/09/07

Desassossego



O dia amanheceu tão normal que me deu desassossego, eu esse galho seco, que nem tombo nem rebroto. Rolando sozinha na cama, dei de ficar imaginando as distâncias muitas entre mim e o mundo. Não falo de distâncias Quilometradas, essas, em sua maioria são banidas em minutos longos de estradas. Refiro-me, as distâncias de almas vivas, que não me socorrem as angustias. Distância de outro eu infante perdido em alguma  gaveta de mim.  Distância de sorrisos, os sinceros, vindos das alegrias triviais como tomar banho de chuva, ou andar de bicicleta. Não esse meramente cortês que ponho ou que recebo em alguns lábios, dias... Tenho fome de mãos, aquelas mesmas que me  batiam de havaianas ou tamanco, quero sentir aquela dor em meu corpo mais uma vez, apenas para me sentir amada, cuidada... Que se dane o conselho tutelar, uma palmada na minha alma de outro dia, me soaria como beijo sincero de amor. 
Quero o café amargo pela falta do açúcar em casa, a essa doçura brejeira que só contribui ao diabete.
Quero meus pesadelos de morte, medo e suor na madrugada e uma voz suave a me dizer, Já passou foi apenas um pesadelo. Mil vezes o pesadelo que esse sonho de groselha desbotado.
Quero a esperança da vinda em horizontes longos de janela. Quero mais uma vez, buscar em mim uma esperança adormecida de que os dias passem céleres e que a vida valha à pena.
Dona Ulina
19/12/2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

SEM ENDEREÇO

Às vezes tenho vontade de gritar verdades. No entanto as calo por não saber as verdades das coisas. Queria ao menos uma vez dizer, falar, traduzir, gritar minhas possibilidades. Dizer dessa raiva que se acumula em mim. Dessa tristeza que me esvazia de outras coisas. Quem sabe dizer desse desejo de ir, ficar, partir e me permanecer.

Se o dia é frio recolho-me a sua frieza, e eles têm sido uma constante. Quando há calor é quase sempre apenas emanado pelo sol. Não o dos seus olhos, que parece esta em eterno outono e já não brilha tanto. Mas já disse, tenho medo de pensar, dizer essas coisas, elas podem não ser verdade, e não sendo verdade, julgo haver alguma inverdade nesses dias.

Em dias juro que pareço sentir seu desejo de partida, quando foges para algum lugar escondido de sua alma, onde meu sorriso, vontade, desejo não te alcança, ou não nos alcançamos.

Mas é certo que nem tudo que digo, falo ou penso são verdades. Pois já envelheci o bastante para não ter verdades absolutas. E desse modo vou enchendo páginas, tisnando linhas que efetivamente não dizem nada de meus abismos, mas de alguma forma as digo.

Penso em pular uma hora dessas, mergulhar nesse oceano de incertezas que me consome. Quem roubou minha voz? Quem mutilou minhas pernas senão esse medo do que não já não é, ou do porvir.

A manhã nasceu iluminada pelo sol, e, no entanto não irradiou luz em minha caverna, sou esse buraco escuro. Eu todo escuro.

O lago que antes jorrava aos meus pés já não me encanta, eu desencanto você desencanto de mim.

Cadê o até que a morte nos separe?
Eu morri dentro de você e isso justifica minha viuvez viva.

Dona Ulina

terça-feira, 22 de maio de 2012

Casa da Noite

Era tarde linda! Cheia de sonhos que escorriam pelas calhas. Nelas banhou-se o tempo que veio, chegou de mansinho e depois voltou ao fundo do cosmo. Era uma tarde apenas. Eu, mulher feita, sentada na varanda de um esquecimento de outro dia.
Era passado? Não lembro.
Era saudade!...
E as bicas lavando almas. A minha já tomada pelo o encardido do tempo nem ousei banhar-me, apenas olhava a bica.
Houve um tempo que a bica trazia um frio e eu me aquecia em outros corpos.

Eu própria bica, me escorria em tardes assim.

Hoje, nessa tarde, eu mulher talhada no barro da vida, lapidada pelas dores de outros tempos me faço rocha e deixo que Nix visite-me,  e deixe-me descansar em seus vazios, que também são os meus nessa tarde que breve será noite.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Eu, esse lugar comum

Eu sou essa multidão:
Cheiros, abraços, gestos...
Sou pássaro quando me lanço ao sonho
Pedra quando me fixo a realidade.

Sou essa diversidade toda,
Deusa e serpente,
Gosto e palato,
Ida e volta em muitas realidades.

Sou eu esta coisa a ser decifrada
Este objeto comum, lugar comum...
Partida e chegada de diversas vontades.

Sou eu quem sabe
O pleno convencimento de ser

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sacizando por aí.


O Saci-pererê: é um dos mais populares personagens do folclore brasileiro - Diz o mito que ele se desloca dentro de redemoinhos de vento, e para captura-lo é necessário jogar uma peneira sobre ele. Após o feito, deve-se tirar o gorro e prender o saci dentro de uma garrafa. Somente desta forma ele irá obedecer seu “proprietário”. 


Com o objetivo de diminuir a importância da comemoração do Halloween no Brasil, foi criado em caráter nacional, em 2005, o Dia do Saci ( 31 de outubro). Uma forma de valorizar mais o folclore nacional, diminuíndo a influência da cultura norte-americana em nosso país.
Mas o que é o Saci Corrida? 
O saci corrida é uma ótima brincadeira para introduzir esse personagem no imaginário infantil, esta consiste em propor uma corrida com uma perna só, bem ao estilo Saci.
Esta corrida aí aconteceu na comunidade Queimadas, situada no município de Poço Redondo-Se.


 



sábado, 28 de abril de 2012


As Duas Velhinhas

Duas velhinhas muito bonitas,
Mariana e
Marina,estão sentadas na varanda:
Marina e Mariana.

Elas usam batas de fitas,
Mariana e
Marina,e penteados de tranças:
Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e
Marina,em xícaras de porcelana:
Marina e
Mariana.
Uma diz: "Como a tarde é linda,
não é, Marina?"
A outra diz: "Como as ondas dançam,
não é Mariana?"

"Ontem, eu era pequenina",
diz
Marina.Ontem, nós éramos crianças",
diz
Mariana.
E levam à boca as xicrinhas,
Mariana e
Marina,as xicrinhas de porcelana:
Marina e
Mariana.
Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e
Marina,em xícaras de porcelana:
Marina e
Mariana.


Cecília Meireles
Do livro: Ou isto ou aquilo

sexta-feira, 27 de abril de 2012


“De saudade não se morre
Sem saudade não se vive
Às vezes sinto saudade
Das saudades que não tive.”

História de Dona Ulina.

Meu nome é Ulina, nome antigo! Assim como eu. Aliais, sou do tempo que os nomes eram estranhos mesmo. Talvez por que era na nossa língua. Naquele  tempo que nome bonito, era Maria, Pedro, João, Izabel...
Hoje, os nomes são modernos, copiado da televisão, e nascem mais Annes, que Ana e mais Peter que Pedro. É a modernidade!
Sou antiga.
No meu tempo, a meninada brincava era na rua, sem ser de rua. A  rua era ao mesmo tempo, o campo de jogar bola,   andar de bicicleta, jogar, bila, como brincar de roda...!
Existia aquele tempo, uma  harmonia entre a rua, nossos pais e nós, e nunca uma bola na janela de um vizinho foi motivo pra delegacia. Uns dois dias de castigo sem bola, e estava tudo em paz.
Tínhamos mais flores que vidraça, e no final da tarde os adultos sentavam nas calçadas para um bate papo. Tempo antigo! Hoje o bate papo é virtual. 
Não tínhamos celulares, ifone, Ipod... Mas nos divertíamos muito e de verdade: Perna de pau, boneco, peteca, amarelinha, cavalo de pau, ciranda, pião, carrapeta, pega-pega, esconde-esconde, boca de forno, cabra cega adivinhação - O que é que é? Que fala sem ter boca e anda sem ter pé? - O que é que é cai em pé e corre deitado?  O que é o que? Quatro em cima de quatro, quatro esperando quatro e quatro não vem? – Judite sempre acertava todas.
Hoje os meninos brincam é no computador, nem sabe o que é uma carrapeta. Não tem mais a rua, nem brincadeira de roda, Isso é antigo.
A rua, agora, quando não é dos carros é o espaço do medo, mas isso é moderno!

Ah! E ainda tinha as histórias de Era uma vez: Trancoso, Carochinha...

Lembro de Dona Iaiá, moça velha, filha de Dona Filó,  que sempre a tardinha, logo após a hora do Ângelo, e todas as crianças rezavam sua Ave Maria, ela  gritava:
- Quem quer história de Trancoso? E era um eu, eu, eu... e logo após se fazia um silencio sepulcral. Pois ela dizia logo: - Com barulho eu não conto. Ai a meninada ia se aninhando a sua volta e depois de tudo quietinho, ela soltava lá de dentro da alma um: Era uma vez... E dava vida a príncipes, princesas, castelos, bruxas e fadas que povoavam nossas imaginações.
É claro, que além de nos divertir, essas histórias ajudavam a construir valores. Quem mente cresce o nariz, quem responde o pai e a mãe, fica com a boca torta. E nós, bobinhos! Acreditávamos. Tempo antigo!

Hoje parece que os meninos já nascem sabendo tudo. Não tem mais fantasia, não sonham, nem brincam! Mas é o preço da modernidade.

É o tempo passou! Estou velha!
Mas a lembrança desse outro tempo me faz feliz, pois posso me debruçar sobre ele e dizer: Eu brinquei, cai, me aranhei, sonhei, mas vivi.

Isso é coisa da antiga mesmo, pode estar pensando você, ou você, ou todos até. Não importa, essa é minha história. Não tenho culpa de ser de outro tempo, como vocês não tem de serem do agora.

Cada tempo é o presente, e por tanto será passado também.

O tempo não volta, mas pode ser revivido. Vem cá você e você também, ajuda Dona Ulina a se rever menina. Nalgum canto de minha mente tem uma cirandinha.