Às vezes tenho vontade de gritar verdades. No entanto as calo por não saber as verdades das coisas. Queria ao menos uma vez dizer, falar, traduzir, gritar minhas possibilidades. Dizer dessa raiva que se acumula em mim. Dessa tristeza que me esvazia de outras coisas. Quem sabe dizer desse desejo de ir, ficar, partir e me permanecer.
Se o dia é frio recolho-me a sua frieza, e eles têm sido uma constante. Quando há calor é quase sempre apenas emanado pelo sol. Não o dos seus olhos, que parece esta em eterno outono e já não brilha tanto. Mas já disse, tenho medo de pensar, dizer essas coisas, elas podem não ser verdade, e não sendo verdade, julgo haver alguma inverdade nesses dias.
Em dias juro que pareço sentir seu desejo de partida, quando foges para algum lugar escondido de sua alma, onde meu sorriso, vontade, desejo não te alcança, ou não nos alcançamos.
Mas é certo que nem tudo que digo, falo ou penso são verdades. Pois já envelheci o bastante para não ter verdades absolutas. E desse modo vou enchendo páginas, tisnando linhas que efetivamente não dizem nada de meus abismos, mas de alguma forma as digo.
Penso em pular uma hora dessas, mergulhar nesse oceano de incertezas que me consome. Quem roubou minha voz? Quem mutilou minhas pernas senão esse medo do que não já não é, ou do porvir.
A manhã nasceu iluminada pelo sol, e, no entanto não irradiou luz em minha caverna, sou esse buraco escuro. Eu todo escuro.
O lago que antes jorrava aos meus pés já não me encanta, eu desencanto você desencanto de mim.
Cadê o até que a morte nos separe?
Eu morri dentro de você e isso justifica minha viuvez viva.