Há dias nos quais não se sabe ao
certo o porquê, mas trazido nas asas de algum momento revisitado, damos de
ficar sentado nesse balanço de outros tempos.
Nesta manhã, visitam-me patos e
marrecas.
Havia um tempo em que os patos e as
marrecas eram meus companheiros. Quando tudo se transformava naquele espaço
hostil, típico de um casamento falido, era o grasnar desses bichinhos que me
acudiam.
Às vezes, eu imaginava que, lá do
quintal, eles também percebiam a agonia interna da casa, pois era em momentos
assim que suas sinfonias se tornavam intensas.
Quem já ouviu grasnar, sabe que não
é dos cantos o mais belo. Mais eram meus os seus cantos, seus “prantos”, suas
fomes, e nossas agonias.
Eles me davam canto rouco que me acudiam
do choro infantil e eu os protegia da mão carrasca daqueles que os desejavam
como prato principal de um dia qualquer. Mas, dentre todos, havia uma que para
mim era especial, uma marrequinha de pelo lustroso e negro que eu
carinhosamente chamava de Patolinha. Entre nós havia muita sintonia. Eu a amava
com especial atenção, pois de todos, ela parecia ser a mais frágil e era também
a mais carinhosa comigo. Inocente que eu era naquele tempo, não sabia que por
vezes as relações de quintais também têm lá suas violências. E foi em um dia
que trouxeram ao quintal um pato grande, forte, que descobri que patolinha e eu
éramos tão indefesas as nossas sinas. As dores daquela manhã talhariam minha
alma de uma verdade ímpar, que me parecem ter vestido os anos seguintes da
minha vida. Ainda hoje não sei por que
razão ele bruscamente matou minha companheira de penas lindas. Patolinha foi
talvez, para o além, onde descansam as almas dos patos bons. Aquele que a matou
e também morreu sob a mira de minha fúria há de ter carpido mais que aquela
água quente que lhe arrancaram as penas.
Dessa tristeza primeira, ficou a
lembrança revisitada nessa manhã nem sei por que. Das tantas outras perdas que
assolam minha vida, ficam em dias assim um vazio, uma busca e uma saudade, não
apenas da Patolinha, minha amada marreca de penas lindas, mas de um tempo em
que o quintal e eu éramos plenos, completos, ainda que vez ou outra o grasnar
fosse o apelo de fuga a realidade do meu lar. Nessa manhã cinza de sol nublado,
queria ser criança assustada para ter de volta a fantasia do que já não há.
Dona Ulina
17/09/07

Dona Última, tú me levaste aos retalhos das minhas vivências no quintal amado. Com lágrimas nos olhos penso no solo argiloso, matéria dos meus brinquedos, das casinhas e bois de barro. No remanso que era o meu quintal na infância, que não me larga e exige passeio e abrigo.
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