quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"... Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira"

Hoje amanheci vestida de uma saudade de outros. Dias de estudante lá do primário. Uma escola pobre da área rural do Ceará, onde não me lembro de nenhuma visita do MS. Paulo Freire, e do mesmo modo, desconfio, que as  teorias de Piaget não estiveram presentes em nossas cirandas.
Lembro que minha escola não tinha banheiro, e nós esperávamos a hora do recreio para irmos ao matinho que ficava no entorno da escola.
Nossa escolinha não tinha biblioteca, área de lazer e a merenda nem sempre existia, nossos pais ainda pagavam uma taxinha para que estudássemos.
Mas se Piaget e Paulo Freire,  não foram nos ver naqueles rincões, eu posso dizer que não raro nos visitava Monteiro Lobato, Esopo e irmãos Grimm. É certo que fui saber seus nomes muitos anos depois, mas suas histórias nos ajudavam a compreender  um mundo para além do quintal de casa.
Não tivemos ábaco, globo, mapa mundi e não tinha roda de leitura, tinha a hora de tomar a lição.
Mas digo com orgulho que mesmo sem esses recursos e sobre o crivo de um tradicionalismo beirando o autoritarismo, que sou fruto dessa escola, e foi ela que contribuiu para que eu chegasse ao 4º ano sabendo ler, escrever, multiplicar, dividir, somar, subtrair, onde fica a região Nordeste e quais os estados que a compõe... E claro um extremo gosto pela leitura, poesia, e amor por esse País.
Em contrapartida, lembro-me de minha mãe sempre a dizer: Respeite sua professora, não brigue com o coleguinha, não pegue nada de ninguém, peça licença, diga obrigada, cadê a lição de casa? Vá estudar... E claro, lembro-me de minha mãe sempre contando boas e velhas histórias de Trancoso, que somente muitos anos depois descobri tratar-se de um  escritor português de nome Gonçalo Fernandes Trancoso.
Digo isso para ratificar que os problemas estruturais da e na educação brasileira dista de muitos dias atrás. E mesmo sem clamar o retorno do tradicionalismo e nem o descaso com os direitos infantes, creio  haver aí  um elo perdido entre o ensinar e o aprender, entre o aprender e se encantar pelo aprendizado.
Isso tudo é para dizer obrigada as minhas professoras da minha escolinha, de duas salas e sem banheiro. De nome feminino: Escola Maria Aridina Vidal de Andrade, que com sua mágica me ajudaram a ler escrever e me apaixonar pelo o aprendizado.
Do mesmo modo agradecer minhas professoras do ensino fundamental e médio, que me apresentaram o fino, o ‘chic’ de nossa cultura. Quando me apresentaram Drummond, Machado de Assis, José de Alencar, Manoel Bandeira, Clarice Lispector... que me fizeram conhecer o engenho de José Lins do Rego. Viajar nos porões de um Navio Negreiro denunciado por Castro Alves e  assim compreender os meandros de uma história não contada. 
tod@s vocês que de alguma forma ajudaram a me compor, meu muito obrigada!!
Dona Ulina

quinta-feira, 7 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER, ENTRE CONQUISTAS E LUTA A IMPUNIDADE E O SANGUE AINDA JORRAM.



Eu talvez esteja mesmo bastante pessimista, porem creio que não sem razões. Parece que a despeito de todas as lutas e conquistas de homens e mulheres trabalhadoras desse País, temos assistido patéticos os rumos que a política brasileira tem tomado. Em nome de uma democracia forjada, temos visto e assistido a cada dia um inimigo do povo ascender a postos de estrema relevância no campo dessas conquistas, ou da efetivação de lutas das minorias. Renan Calheiros, condenado pelo STF, assume a presidência do Senado, Deputado Feliciano, racista e homofóbico, eleito para Comissão dos Direitos Humanos e o ‘ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), ser eleito para presidir a Comissão de Meio Ambiente. A escolha é, no mínimo, curiosa, já que Maggi é o maior plantador de soja do Brasil e durante muitos anos foi apontado pelo movimento socioambiental brasileiro como um dos principais inimigos do meio ambiente no país, tendo ganho, inclusive, o famigerado Prêmio Motosserra de Ouro’.para citar apenas alguns dos desmando em cenário Nacional, pois se descermos aos municípios e Estados encontraremos sem dúvida, escândalos e absurdos em proporções iguais ou superiores.
Somando-se a isso tudo, temos ainda os dados sobre a situação da violência contra mulheres, pelos dados mais recentes do mapa da violência, feito pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, o Brasil é o 7º país do mundo em assassinatos de mulheres. Esses crimes acontecem no país inteiro, basta olharmos os noticiários.
Em Alagoas, Gilvanete Rosendo da Silva, grávida de oito meses, foi espancada com uma barra de ferro pelo marido. Ela morreu e o bebê vai para adoção. No Rio Grande do Norte, a advogada Vanessa de Medeiros foi assassinada a pauladas pelo ex-namorado, o policial militar Gleyson Galvão. Na última sexta-feira (1º), em um shopping de Brasília, Fernanda Graziele Alves foi morta a facadas pelo ex-companheiro, na loja onde trabalhava. É claro que para cada um caso de repercussão Nacional, existem dezenas que nem sequer são investigados.
Só no estado de Alagoas, 1º colocado no ranking de violência contra mulher, no ultimo ano foram registradas 164 mortes de mulheres, dessas 110 foram praticadas por arma de fogo, 27 por faca, facão e enxada, 12 por espancamento, seis por pedradas e pauladas, quatro vítimas de estrangulamento, uma teve a ossada encontrada, e quatro casos não foram informados. Destes homicídios, 54 foram praticados na capital alagoana e 105 no interior do Estado, três ficaram sem informações da localidade.
Ante esse quadro fico perguntado se há de fato o que se comemorar, ou apenas mais um dia para lutar pela sobrevivência e dignidade desse e nesse País de democracia e direitos forjados.

Dona Ulina