Hoje amanheci vestida de uma
saudade de outros. Dias de estudante lá do primário. Uma escola pobre da área
rural do Ceará, onde não me lembro de nenhuma visita do MS. Paulo Freire, e do mesmo modo, desconfio, que as teorias de Piaget não estiveram presentes em nossas cirandas.
Lembro que minha escola não tinha
banheiro, e nós esperávamos a hora do recreio para irmos ao matinho que ficava
no entorno da escola.
Nossa escolinha não tinha
biblioteca, área de lazer e a merenda nem sempre existia, nossos pais ainda
pagavam uma taxinha para que estudássemos.
Mas se Piaget e Paulo Freire,
não foram nos ver naqueles rincões, eu posso dizer que não raro nos visitava Monteiro Lobato, Esopo e irmãos
Grimm. É certo que fui saber seus nomes muitos anos depois, mas suas
histórias nos ajudavam a compreender um
mundo para além do quintal de casa.
Não tivemos ábaco, globo, mapa
mundi e não tinha roda de leitura, tinha a hora de tomar a lição.
Mas digo com orgulho que mesmo
sem esses recursos e sobre o crivo de um tradicionalismo beirando o
autoritarismo, que sou fruto dessa escola, e foi ela que contribuiu para que eu
chegasse ao 4º ano sabendo ler, escrever, multiplicar, dividir, somar,
subtrair, onde fica a região Nordeste e quais os estados que a compõe... E claro
um extremo gosto pela leitura, poesia, e amor por esse País.
Em contrapartida, lembro-me de
minha mãe sempre a dizer: Respeite sua professora, não brigue com o coleguinha,
não pegue nada de ninguém, peça licença, diga obrigada, cadê a lição de casa?
Vá estudar... E claro, lembro-me de minha mãe sempre contando boas e velhas
histórias de Trancoso, que somente muitos anos depois descobri tratar-se de
um escritor português de nome Gonçalo
Fernandes Trancoso.
Digo isso para ratificar que os
problemas estruturais da e na educação brasileira dista de muitos dias atrás. E
mesmo sem clamar o retorno do tradicionalismo e nem o descaso com os direitos
infantes, creio haver aí um elo perdido entre o ensinar e o aprender,
entre o aprender e se encantar pelo aprendizado.
Isso tudo é para dizer obrigada
as minhas professoras da minha escolinha, de duas salas e sem banheiro. De nome
feminino: Escola Maria Aridina Vidal de Andrade, que com sua mágica me ajudaram
a ler escrever e me apaixonar pelo o aprendizado.
Do mesmo modo agradecer minhas
professoras do ensino fundamental e médio, que me apresentaram o fino, o ‘chic’
de nossa cultura. Quando me apresentaram Drummond,
Machado de Assis, José de Alencar, Manoel Bandeira, Clarice Lispector...
que me fizeram conhecer o engenho de José
Lins do Rego. Viajar nos porões de um Navio Negreiro denunciado por Castro
Alves e assim compreender os meandros de
uma história não contada.
tod@s vocês que de alguma forma
ajudaram a me compor, meu muito obrigada!!
Dona Ulina